segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Redemption Song | Playing For Change

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

JORNALISMO?


Do Blog "DoLadodeLá", do jornalista Marco Aurélio Mello:

07/08/11

O Gigante no Pântano


A divulgação este fim de semana dos Princípios Editoriais das Organizações Globo tem por finalidade dar uma resposta à sociedade que clama por regulação. Eles sabem que não podem mais continuar fazendo o que vinham fazendo e tentam se antecipar à legislação para criar um ambiente favorável, no sentido de argumentar que, sozinhos, são capazes de impor uma norma de conduta. Nada mais falso, como conta Rodrigo Vianna (aqui).

Pesquisas qualitativas tem demonstrado que o público voltou a ter antipatia pelo jornalismo praticado pela emissora. O monopólio da verdade acabou. Com o advento da internet (que eles próprios elogiam, já que têm enormes interesses comerciais e investimentos nesse setor) o consumidor de informação deixou de ser massa acrítica. Hoje, uma informação veiculada por eles é confrontada em seguida logo depois, com fez o xará Mello (aqui).

Para trazer informação de qualidade é preciso não ignorar o contraditório, não fazer juízos apressados e preconceituosos, não testar hipóteses irresponsavelmente e não subestimar a capacidade de seu público. Muitos podem até absorver conteúdo inercialmente, mas muitos também estão dispostos a dizer basta. Basta de manipulação, basta hipocrisia, basta de irresponsabilidade (aqui).

Ao definir o jornalismo que fazem, ressaltam: "Livre de prismas e de vieses, pelo menos em intenção, restará apenas o noticiário. Mas, se de fato o objetivo do veículo for conhecer, informar, haverá um esforço consciente para que a sua opinião seja contradita por outras e para que haja cronistas, articulistas e analistas de várias tendências." Desafio os leitores a encontrarem vozes dissonantes em política e economia, por exemplo. Vejam uma amostra do que fazem (aqui).

Informação de qualidade, segundo o documento, tem que ter: isenção, correção e agilidade. Ótimo, bom tripé. No entanto, o jornalismo da emissora não é isento. Posso garantir - como ex-funcionário durante 12 anos - que todo conteúdo "sensível" à emissora, não só é acompanhado de perto pela direção como é modificado e devolvido para os jornalistas. E ai daquele que ouse discordar.

Na seção II o documento prega a relação entre os jornalistas e as fontes. Posso afirmar, são no geral muito promíscuas. Como a TV é vitrine, quase sempre o que temos entre repórter e entrevistado é uma relação pautada pelo interesse recíproco. Como o alcance sempre foi grande, muitas "fontes" se acostumaram a frequentar os noticiários, mesmo quando suas declarações com frequência eram retiradas de contexto.

Quanto aos valores, "As Organizações Globo serão sempre independentes (dependendo do patrocinador - grifo meu), apartidárias (quando o PSDB não estiver no pleito - grifo meu), laicas (quando o Papa não se pronunciar oficialmente - grifo meu)." E prossegue: "Não serão, portanto, nem a favor nem contra governos, igrejas, clubes, grupos econômicos, partidos. Mas defenderão intransigentemente o respeito a valores sem os quais uma sociedade não pode se desenvolver plenamente: a democracia, as liberdades individuais, a livre iniciativa, os direitos humanos, a república, o avanço da ciência e a preservação da natureza." Aqui deixo para os leitores comentarem.

Rede Globo lança Código de Ética e o descumpre numa mesma edição do Jorn...

O TERROR DOS ULTRA-LIBERAIS

 Transcrito do Vi o Mundo, do Jornalista Azenha:
7 de agosto de 2011 às 23:17

Maria da Conceição Tavares: Vivendo a treva, na mão dos ultra-liberais

Economia| 05/08/2011 | Copyleft
“Colapso do neoliberalismo sob o tacão dos ultra-neoliberais: é a treva!”
“Não, não é um quadro com o de 1929. Aquele teve um ápice, com recidivas, mas ensejou um desdobramento político que inauguraria um outro ciclo, com Roosevelt e o New Deal. O que passamos agora é distinto de tudo isso”, diz a economista Maria da Conceição Tavares, em entrevista à Carta Maior. E adverte: “Todavia não menos grave e talvez mais angustiante. É um colapso enrustido, arrastado, latejante. Sim, você tem a comprovação empírica do fracasso neoliberal; mas e daí? São eles que estão no comando, ou será o quê esse arrocho fiscal nos EUA enfiado pelo Tea Party na goela do Obama? Vivemos um colapso do neoliberalismo sob o tacão dos ultra-neoliberais: isso é a treva!”
As manifestações mórbidas de ortodoxia fiscal nos EUA e, antes, o martírio inútil da Grécia, mas também as rebeliões de indignação que tomam as ruas do mundo, em contraste com o alarme sangrento da intolerância neonazista vindo da Noruega, romperam uma blindagem de opacidade e resignação que revestia a crise mundial.
Depois de anos de abordagem asséptica por parte dos governos, e do tratamento complacente e obsequioso desfrutado na mídia, causas e conseqüências da débâcle mais ruidosa do capitalismo desde 1929 adquirem progressiva transparência.
Arcado sob um vácuo de liderança assustador, os EUA de Obama e do Tea Party, mas também a Europa da rendição socialdemocrata, expõem a dimensão política da crise, que realimenta seu impasse econômico.
Nos confrontos de rua entre uma população desesperada e um poder político de representatividade dissolvente, desnuda-se a brutal incompatibilidade entre os mercados financeiros desregulados e os valores da democracia. Na ascendência do Tea Party, pautando um arrocho ortodoxo que joga o planeta às portas de uma Depressão, desaba a confiabilidade na democracia norte-americana que se transforma em fator de insegurança mundial.
A conversa fiada dos centuriões midiáticos que durante o ciclo neoliberal venderam o peixe podre, segundo o qual, democracia e laissez-faire selvagem são personas indissociáveis do capitalismo desregulado, derreteu. Da poça de desilusão escorre um veio de discernimento que se espalha aos poucos pelas praças do mundo: a crise só será efetivamente superada com uma democracia reinventada pela participação popular.
O movimento não se completa, todavia, apesar da truculência incomum, porque a explosão carece, ainda, daqueles atores dos quais se espera , historicamente, a expressão organizada e programática do conflito social: os partidos políticos, mais especificamente, as legendas alinhadas ao campo da esquerda.
Tal vazio afirma a natureza verdadeiramente sistêmica da atual crise, cujo atributo não se restringe ao colapso do corpo econômico de uma época. A crise paradoxalmente trouxe a política de volta porque nenhuma solução de mercado resolverá os impasses causados por ele e por seus mitos.
Essa singularidade não passa desapercebida pelos que se debruçam, como sempre se debruçaram, na análise das crises e impasses do sistema capitalista em busca de respostas progressistas para o presente e o futuro do desenvolvimento brasileiro. Entre as mais importantes contribuições desse indispensável engajamento intelectual está a voz da professora Maria da Conceição Tavares.
Em março deste ano, quando Obama se preparava para aterrissar no Brasil, em meio a confetes e serpentinas de uma mídia obsequiosa, a narrativa dominante saltitava ao som de um novo samba enredo.
Um esforço coreográfico enorme procurava convencer o distinto público sobre a veracidade de algumas fantasias e adereços. A saber: a viagem era um ponto de ruptura entre a ‘política externa de esquerda’ do Itamaraty – leia-se de Lula , Celso Amorim e Samuel Pinheiro Guimarães – e o suposto empenho da Presidenta Dilma em uma reaproximação ‘estratégica’ com o aliado do Norte; a visita selaria um a nova agenda, ‘uma reconciliação’ entre Brasília e Washington ancorada em concessões e acordos expressivos; Obama seria o paradigma de uma modernidade a ser seguida por Dilma, distinta do ‘populismo’ político e econômico da ‘escumalha’ latinoamericana –ele usa twitter, é cool, não gosta de Lula, nem de Chávez.
Em entrevista à Carta Maior algumas horas antes daquela prometida apoteose que, como é sabido, redundou em fiasco, a professora Maria da Conceição Tavares aspergiu certeiras bisnagas de realismo sobre o entrudo inebriado. E avisou: “Obama não tem nada a nos oferecer. Quase nada depende da vontade de Obama, ou dito melhor, a vontade de Obama quase não pesa nas questões cruciais. A sociedade norte-americana encontra-se congelada pelo bloco conservador por cima e por baixo. Os republicanos mandam no Congresso; os bancos tem hegemonia econômica; a tecnocracia do Estado está acuada.”E arrematou: “Obama foi anulado pelo conservadorismo de bordel da direita norte-americana”.
Carta Maior voltou a conversar agora com a economista a quem todos ligam quando o mundo despenca e é preciso saber para que lado ir. E é isso que o mundo está fazendo há dias, metafórica e financeiramente: despencando.
A extrema direita republicana pautou Obama, como Conceição havia antevisto; asfixiou a política fiscal da maior economia do planeta. O anúncio de cortes de gastos públicos da ordem de US$ 2,4 trilhões de dólares sobre um metabolismo econômico combalido, equivale a ordenar aos mercados que imitem o Barão de Munchausen e se ergam pelos próprios cabelos. O Barão de Munchausen era um contador de lorotas. Só a convicção colegial desastrosa do Tea Party no laissez-faire – cujo equivalente nativo é a mídia e seus consultores – pode inspirar-se nas metáforas capilares do velho Barão para pautar os destinos da economia e da sociedade.
Os mercados sabem que a coisa não funciona assim. Investidores e especuladores urbi et orbi farejaram o desastre e se anteciparam fugindo em massa de ações e títulos, candidatos a perder o valor de face na recessão em curso.
Antes de atender Carta Maior, a professora Maria da Conceição já havia recebido telefonemas de Brasília, com a mesma inquieatação: ‘E agora?’.
A decana dos economistas brasileiros entende de crise. Ela nasceu em abril de 1930, poucos meses depois da 5º feira negra de outubro de 1929, quando as bolsas reduziram todo um ciclo a riqueza especulativa a pó e pânico. Em questão de horas.
A voz rouca de quem viveu e estudou todas as demais crises do capitalismo no século XXI, vai logo avisando: “Não, não é um quadro com o de 1929. Aquele teve um ápice, com recidivas, mas ensejou um desdobramento político que inauguraria um outro ciclo, com Roosevelt e o New Deal. O que passamos agora é distinto de tudo isso”.
Maria da Conceição faz uma pausa para para advertir em seguida: “Todavia não menos grave e talvez mais angustiante. É um colapso enrustido, arrastado, latejante. Sim, você tem a comprovação empírica do fracasso neoliberal; mas e daí? São eles que estão no comando, ou será o quê esse arrocho fiscal nos EUA enfiado pelo Tea Party na goela do Obama? Vivemos um colapso do neoliberalismo sob o tacão dos ultra-neoliberais: isso é a treva!’ , desabafa a professora que recém passou por uma cirurgia delicada, tenta moderar a voz e a contundência, mas seu nome é Maria da Conceição Tavares. Bem, ela reforça o torque satisfeita com a síntese enunciada e sublinha, inclemente: ‘É a treva!’
A professora de reconhecida bagagem intelectual, respeitada mesmo pelos que divergem de seus pontos de vista, normalmente prefere não avançar na reflexão política e ideológica. Mas neste caso insiste: ‘Não é um fascismo explícito, como se viu na Europa, em 30. Até porque o nazismo, por exemplo – e isso não abona em nada aquela catástrofe genocida, postulava o crescimento com forte indução estatal. O que se tem hoje é o horror de um vazio político de onde emergem as criaturas do Tea Party e coisas assemelhadas na Europa. Não há ruptura na crise, mas sim, permanência e aprofundamento. Será uma crise longa, penosa, desagragdora, mais próxima da Depressão do final do século XIX, do que do crack de 1929”.
A seguir, trechos da conversa de Maria da Conceição Tavares com Carta Maior:
Carta Maior – No caso do Brasil, no que esta crise difere da de 2008 que superamos rapidamente? Dá para usar a mesma receita de então?
Maria da Conceição Tavares— “É muito difícil (suspira). Primeiro, pela natureza arrastada, enrustida desse longo crepúsculo. Você fica a tomar medidas pontuais. Tenta mitigar a questão do câmbio para evitar a concorrência predatória das importações. Mas tem efeito limitado. Voce aperta os controles aqui, mas o dólar está derretendo lá fora. Está derretendo sob o peso da recessão e do imobilismo político de quem deveria tomar as rédeas da situação. O Brasil não tem como impedir que o dólar derreta no sistema financeiro mundial.
CM—Isso foi diferente em 2008…
MCT—Em 2008 nós tivemos um efeito oposto; capitais em fuga migraram de várias partes do mundo, de filiais de bancos e multinacionais, para socorrer a quebra das matrizes na Europa e nos EUA. Então o que houve ali foi uma desvalorização cambial; o Real ficou mais fraco. Isso facilitou as coisas pelo lado das exportações e da contenção de importações, ainda que quase tenha levado à breca aqueles que especulavam contra a moeda brasileira, fazendo hedge fictício para ganhar na desvalorização. Mas do ponto de vista macroeconômico foi um quadro mais favorável. Hoje é o inverso.
CM – As reservas atuais, da ordem de US$ 340 bilhões são um alento?
MCT—Também há diferenças desfavoráveis nas contas externas. As reservas hoje são basicamente formadas pela conta de capitais; não tanto pelo superávit comercial, como era então. Significa que hoje são a contrapartida de algo fluido, capitais que não sabemos exatamente se representam investimento produtivo, de mais longo curso, ou especulação capaz de escapar abruptamente. Sobretudo, tenho receio porque uma parte considerável desse ingresso é dívida privada. Com a anomalia dos juros, os maiores do mundo – a nossa herança maldita – e a oferta barata e abundante de dinheiro lá fora, nossas empresas se endividaram a rodo. Se houver uma reversão do ciclo, se o dólar se valorizar, o descasamento entre um passivo em dólar e receitas em reais, no caso de quem não exporta, ou exporta pouco, será traumático. Essa contabilidade hoje por certo é mais grave do que o passivo em hedge que quase quebrou grandes grupos brasileiros em 2008.
CM – Então a margem de manobra do governo Dilma é menor?
MCT – (suspira) Estávamos melhor antes. E muito do que fizemos então não dá para fazer agora…

CM—Mas o governo pode…
MCT— O governo Dilma poderá agir de forma distinta e contundente se a crise virar o Rubicão; aí tudo é lícito e possível.
CM – Por exemplo?
MCT – Por exemplo centralizar o câmbio; controlar importações, remessas etc.
CM— E enquanto isso não ocorre?
MCT – Mas enquanto se arrasta assim, uma crise enrustida, que vai minando, desagregando, sem ser confrontada, fica difícil. Você toma medidas pontuais que se dissolvem.
CM – Há uma superposição de colapso do neoliberalismo com esfarelamento político que realimenta e reproduz o processo?
MCT – Veja, é um colapso empírico da agenda do neoliberalismo. Avulta que a coisa é um desastre e os meus colegas economistas dessa cepa, espero, devem estar conscientes disso. Mas que poder tem os economistas? Nenhum. O poder que conta está nas em outras mãos, a dos responsáveis pela crise. Vivemos um colapso neoliberal sob o tacão dos ultra-neoliberais. Não estamos falando de gente normal, é preciso entender isso. Não são neoliberais comuns. Meu Deus, o que é isso que estão fazendo nos EUA? É a treva! Vivemos um colapso do neoliberalismo sob o tacão dos ultra-neoliberais: isso é a treva! E ela se espalha desagregando, corroendo.

CM—Devemos nos preparar para uma crise longa?
MCT—Sem dúvida. Por conta dessa dimensão autofágica que não enseja um desdobramento político à altura, que inaugure um novo ciclo, como foi com Roosevelt e o New Deal em 29.

CM—As bases sociais do New Deal não existem mais nos EUA?
MCT – Não existem mais. Obama é o reflexo disso. É uma liderança intrinsecamente frouxa. Não tem a impulsão trabalhista e progressista que sustentou o New Deal. É frouxo. Seu eleitorado é difuso ah, ótimo, ele se comunica com os eleitores pelo twitter, etc. E aí? É uma força difusa, desorganizada, estruturalmente à margem do poder. Está fora do poder efetivo no Congresso que é da direita, dos ricos, dos grandes bancos e grandes corporações, como vimos agora no desenho do pacote fiscal. Está fora da indústria também que foi para a China. Esse limbo estrutural é o Obama. Ele pode até ser reeleito, tomara que seja. A alternativa é amedrontadora. Mas isso não mudará a sua natureza frouxa.

CM— Se não existe o componente político que assemelhe essa crise a de 1929, então o que é isso, essa’ treva’ que estamos vivendo?
MCT— (ri) Uma treva é uma treva… O que passamos agora é distinto de tudo o que se viu em 29…Todavia não menos grave e talvez mais angustiante. É um colapso enrustido, como eu disse. Arrastado, latejante, sob o tacão de forças como essas dos ultra-neoliberais. Tampouco é um fascismo explícito, porém, como se viu na Europa, em 30. Até porque o nazismo, por exemplo, e isso não abona em nada aquela catástrofe genocida, postulava o crescimento com forte indução estatal. O que se tem hoje é o horror; um vazio político de onde emergem essas criaturas dos EUA, e coisas assemelhadas na Europa. Será uma crise longa, penosa, desagragdora, mais próxima da Depressão do final do século XIX…
CM- O declínio de um império, como foi o declínio do poder da Inglaterra no final século XIX?
MCT—Sim, é um quadro mais próximo daquele. O poder inglês foi sendo contrastado por nações com industrialização mais moderna. Um arranjo com estrutura de integração superior entre a indústria e o capital financeiro e que aos poucos ultrapassaria a hegemonia inglesa. Foi uma quebra, uma inflexão entre o capitalismo concorrencial e o capitalismo monopolista. A Inglaterra que havia sido a ‘fábrica do mundo’ perdeu o posto para o agigantamento fabril americano e alemão. Isso se arrastou por décadas. Foi uma Depressão, a primeira Depressão que tivemos no capitalismo (durou de 1873 a 1918). Levou à Primeira Guerra, que resultou na Segunda…
CM—Os EUA são a Inglaterra da nossa longa crise… E o novo hegemon?
MCT – As forças que se articularam na sociedade norte-americana, basicamente forças conservadoras, de um reacionarismo profundo, não em condições de produzir uma nova hegemonia propositiva. Claro, eles tem as armas de guerra. Não é pouco, como temos visto. Vão se impor assim por mais tempo. Mas daí não sai um novo hegemon. Vamos caminhar para um poder multilateral, negociado, sujeito a contrapesos que nos livrarão de coisas desse tipo, como a ascendência do Tea Party nos EUA. Uma minoria que irradia a treva para o mundo.

MAIS UMA DA GLOBO

Blogosfera incomoda a Rede Globo

Por Daniel Dantas, no blog De olho no discurso:

Ao acordar agora pela manhã me surpreendi com o nome Organizações Globo entre os Trending Topics Brazil. Fui olhar e... bingo. Rodrigo Vianna e a blogosfera progressista incomodam. Mais que isso: o cuidado da emissora indica que o escrevinhador estava bem informado.



Explico: Rodrigo publicou na sexta-feira à noite a informação, amplamente repercutida em toda a blogosfera, que havia uma determinação editorial de bater em Celso Amorim, nomeado ministro da Defesa. No dia seguinte, a Globo se vê obrigada em divulgar um documento que reúne os princípios editoriais de seus veículos de comunicação.

Houve reportagem no Jornal Nacional e em seus sites de notícias sobre o assunto, descrevendo normas e condutas que o grupo deve seguir com relação ao seu conteúdo jornalístico, como isenção, correção e agilidade.

É no mínimo curioso, para não falar em ridículo, a Globo falar em princípios como isenção, correção e agilidade. Ao ler isso, só posso me lembrar de 2006, na noite da sexta-feira, 29 de setembro, véspera da eleição em primeiro turno e, dia do acidente do Gol. Estava no Rio de Janeiro, em um curso, já havia quase três meses. Nos últimos quinze dias, praticamente, o tema que dominava a campanha entre o presidente Lula e o governador Geraldo Alckmin (PSDB) era o dôssie com informações contra José Serra e outros tucanos que, supostamente, os envolviam com os irmãos Verdoin e o escândalo dos sanguessugas.

O dossiê vai sempre ficar no âmbito do supostamente, uma vez que ninguém se dispôs a investigar sua veracidade após a prisão dos petistas que estavam prontos a comprá-lo em um hotel de São Paulo. O presidente Lula os batizou de aloprados.

Acontece que o tema passou a monopolizar a eleição nos dias seguintes e houve uma pressão enorme para que a Polícia Federal divulgasse fotos do dinheiro - de impacto visual e eleitoral indubitável. Até que no dia 29, no início da tarde, o delegado Bruno, que havia feito a prisão em flagrante dos envolvidos, desvio um CD com fotos do dinheiro para a imprensa.

O avião da Gol desapareceu dos radares no fim daquela tarde. Era por volta das 18h quando as primeiras notícias sobre o avião desaparecido surgiram na imprensa. Lembro que voltei do curso para o hotel onde me hospedava, no centro do Rio. O Jornal Nacional daquele dia foi totalmente dedicado às fotos do dinheiro - afinal no domingo era a eleição e, tudo indicava, ainda era possível impedir uma vitória de Lula no primeiro turno. Logo após o jornal, no primeiro break da novela, entra um plantão do Jornal da Globo, com William Wack, informando o acidente da Gol.

Na semana seguinte, tive aula com profissionais de grandes veículos nacionais. Entre eles, uma editora do Jornal das Dez, da GloboNews. Eu mesmo perguntei como era a relação com a matriz no que se referia a furos: Era possível à Globo News furar a Globo? Ela deixou claro que não. E, espontaneamente, lembrou o acidente na última sexta-feira. Segundo ela, por volta das 19 h a Globo News já tinha tudo pronto para falar sobre o acidente. Mas havia uma ordem da direção para que nada fosse divulgado até que a Globo noticiasse.

Confesso que na hora ninguém fez uma leitura política do fato. Até que a Carta Capital mostrou como a Globo e Ali Kamel haviam manipulado o caso das fotos em detrimento à queda do avião - porque tinha seus interesses eleitorais, nada isentos ou corretos. E se fosse verdade a versão de Kamel, nenhum pouco ágeis. Afinal, segundo o diretor, a notícia do acidente somente chegou à Globo com o Jornal Nacional no ar. Fazia duas horas que a emissora filha já tinha material pronto para dar a notícia. Se levou duas horas para que a notícia passasse da Globo News para a TV Globo, a se tomar em consideração a versão oficial, a Rede Globo prova ser nenhum pouco ágil.

Mas não é o caso. Havia uma manipulação política dos fatos do dia para beneficiar a candidatura que apoiavam - Alckmin - em detrimento da candidatura do presidente Lula. Do mesmo modo que fizeram em 1989. De modo semelhante a agora, quando a direção editorial da tevê deu ordens de bater em Celso Amorim, conforme denunciou Rodrigo Vianna.

O episódio destaca que o que falamos na Internet pode provocar impactos e problemas para o mainstream da mídia. A Globo reagiu a uma informação publicada em blog por um ex-repórter seu que saiu por não se conformar com a forma parcial de cobertura da eleição de 2006. Essa informação circulou com bastante intensidade nos blogs e redes sociais. A tevê reagiu onde podia provocar mais impacto: até o Jornal Nacional foi convocado para lhe fazer a defesa. E o tema entrou no TTBr.

Mas, como lembra Luiz Carlos Azenha, que também conheceu por dentro as manipulações da Vênus Platinada, em 1989 a emissora também tinha seus príncipios para melhor se exerça a democracia:

A TV Globo também fez uma declaração de princípios, em 1989.

Foi na noite em que o Jornal Nacional transmitiu o resumo do debate eleitoral entre Fernando Collor e Lula, editado de tal forma a destacar as melhores falas de Collor e as piores de Lula.

Collor e Lula disputavam a presidência da República. Collor, com apoio da Globo, venceu a eleição.

Seguiu-se ao resumo do debate uma pesquisa do Vox Populi, então ligado a Collor, mostrando como Collor era “o melhor preparado”.

Então, Alexandre Garcia apareceu no vídeo para dizer:

“Nosso trabalho, como profissionais da televisão, foi e continuará sendo o que fez a televisão nesses dois debates. Manter aberto esse canal de duas mãos entre o eleito e os eleitores, para que melhor se exerça a democracia”.

Foi no mesmo ano em que a ex-namorada de Lula, Miriam Cordeiro, apareceu primeiro no Jornal Nacional e depois na propaganda de Collor dizendo que o ex-metalúrgico Lula tinha pedido a ela que abortasse e feito declarações racistas. Miriam recebeu dinheiro para fazer tais declarações.